NATURALIZADOS E LUSO DESCENDENTES NA SELEÇÃO

MIGUEL PORTELA REGRESSA COM MAIS UM TEMA muito importante para o rugby português.

Com a frontalidade a que nos habituou, Portela aborda a questão das naturalizações e da presença dos luso descendentes na nossa seleção.

Um tema quente que o internacional português lança para cima da mesa sem tabús nem preconceitos.

MIGUEL PORTELA

Como nota preliminar deste tema, fica desde já a minha ideia prioritária sobre o assunto:

Na Seleção, equipa representativa de Portugal, dos portugueses, deverão jogar todos aqueles que, pelas suas características, melhor defendam o nosso País.

E no conceito de “todos”, refiro-me a todo e qualquer cidadão que, por Lei, seja elegível e equacionável para jogar pela nossa Seleção.

E esta elegibilidade, nos termos da Lei portuguesa, consiste na exigência do jogador ser cidadão português (originariamente ou por naturalização).

Aliás, lei portuguesa que é mais exigente do que a “lei” da IRB que apenas exige que o jogador esteja no respectivo país, há, aproximadamente, 3 anos seguidos.

Ou seja, para mim, todo e qualquer cidadão português tem e deve ter a possibilidade de poder integrar a nossa Seleção de Rugby.

Esta é a questão política e legal que, salvo opiniões mais radicais, me parece pacífica.

Duas outras questões, no entanto, podem ser colocadas:

  • Qual a oportunidade e meios para se naturalizar um jogador;
  • Quais os métodos de escolha e integração dos naturalizados e luso descendentes na Selecção;

A primeira questão, na minha óptica, deve se abordada sob um ponto de vista moral e desportivo irrepreensível.

Claro que são conceitos subjetivos e cada um terá o seu ponto de vista.

Mas, para mim, a questão da naturalização é muito simples e fácil de definir: dever-se-á trabalhar no processo de naturalização de todos aqueles jogadores que, de uma forma espontânea, ao longo dos anos, foram-se integrando na comunidade rugbística do País e, pelo seu exemplo desportivo e ético dentro e fora de campo, constituem exemplos reconhecidos por todos.

Ou seja, a naturalização deverá ser efetuada como o resultado de uma experiência de vida desses jogadores em Portugal.

Será, no fundo, o reconhecimento natural (e não artificial ou falso) da identidade do jogador com o rugby português, os seus agentes (jogadores, treinadores, dirigentes, adeptos) e com Portugal em si.

E este “reconhecimento natural” não é apenas uma ideia poética.

Ela tem razão de ser e justifica-se pela própria aceitação do jogador naturalizado dentro do Grupo de jogadores da Seleção, dos treinadores, dirigentes e, também e especialmente, para o próprio público que nos apoia.

A naturalização artificial (através de expediente burocráticos ousados e expeditos) jamais poderá ter resultados positivos.

Sendo que desportivamente esses resultados não são nada garantidos (uma naturalização artificial pode gerar mau ambiente entre jogadores; por vezes os naturalizados não rendem o que se esperava; etc.), mesmo que tragam vitórias, a nação terá muito mais dificuldade em reconhecer o mérito de vitória à equipa.
Se ganhássemos o Campeonato do Mundo, com 22 jogadores naturalizados à força e sem identidade com a nossa comunidade, quem iria reconhecer o mérito dessa vitória?

Quem iria cantar a portuguesa com a emoção que, nos dias que correm, miúdos e graúdos o fazem nos jogos da nossa seleção? Muitos poucos….

Por esta razão, a naturalização deverá ser o reconhecimento sério e natural dos serviços e experiência de vida de um jogador estrangeiro em Portugal.

Nunca um meio expedito para tornar (tentar tornar) a Seleção mais forte.
Respondida a primeira questão, passemos, então, para a segunda.

Esta ainda mais subjetiva do que a primeira.
Na verdade, respeitados os princípios que defendo na resposta à primeira questão, tanto naturalizados como Luso-descendentes, colocam-se numa situação e uma ainda maior igualdade em relação aos restantes jogadores (que nasceram e evoluíram no rugby interno).

E, sendo assim, os critérios de escolha deverão ser assumidos por Presidente, Selecionador e Capitão de equipa, levando em linha de conta praticamente os mesmo princípios que os demais jogadores, aos quais deverão acrescer:

a certeza de que têm uma vontade grande de representar Portugal e que vão sentir a responsabilidade de representar o nosso País;

a convicção de que a integração desse jogador terá uma mais valia para a equipa

E se o primeiro critério me parece óbvio e carece de explicações, o segundo critério deverá ser atendido pelas seguintes razões.

A primeira razão tem a ver com o facto de um jogador naturalizado ou Luso descendente ter associado custos financeiros acrescidos em relação aos jogadores originariamente portugueses e que militam no nosso campeonato nacional.

Custos relacionados com despesas de deslocação e estadia.

A segunda razão, menos visível, prende-se com o facto de, cada vez que um naturalizado ou Luso-descendente joga pela nossa selecção, haver um jogador formado no “nosso rugby” que é preterido.

Há um jogador formado do nosso rugby que tem menos uma experiência a nível de rugby internacional.

Há um jogador do nosso campeonato nacional que pode sentir algum desânimo em lutar e trabalhar para jogar da Selecção.

Desânimo esse que, aos poucos, pode contagiar-se.

Primeiramente pelos seus Colegas do Clube e, progressivamente, no seio dos jogadores dos outros clubes rugby nacional.

E, acontecendo isto de forma sistemática, aos poucos, estaríamos a enfraquecer o rugby nacional.

Na verdade, no dia em que naturalizados e Luso-descendentes constituíssem a maioria da nossa seleção, o rugby nacional teria o sério risco de desaparecer.

Sendo que jogar pela Seleção é a grande motivação e razão para que os jogadores se sacrifiquem, se dediquem e trabalhem para ser melhores.

Havendo poucas hipóteses de o conseguir por causa da concorrência “estrangeira”, a médio prazo, essa vontade iria desaparecer.

A realidade em Portugal no que respeita a este processo (naturalizados e Luso-descendentes), salvo um ou outro caso menos conseguidos, tem sido correta e acertada.

Resta, agora, manter esses padrões e critérios.

Não cair na tentação do resultado fácil e imediato.

Saber sempre que, mais importante do que o resultado imediato, o fundamental é semearmos, dia a dia, as sementes que nos permitam ser fortes e coesos nos momentos difíceis.

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Uma resposta to “NATURALIZADOS E LUSO DESCENDENTES NA SELEÇÃO”

  1. Manuel Gaivao Says:

    Olá Miguel,

    Se em relação aos naturalizados estou totalmente de acordo com a sua opinião, já quanto aos “luso-descendentes” não sei se o estou e por motivos pessoais que são fáceis de explicar. Desde já, esclareço que detesto esta expressão, que me parece quase discriminatória.

    Vim para o Luxemburgo em 2001 e aqui nasceram, em 2007 e 2009, os meus dois filhos. O mais velho já cantava “A Portuguesa” em frente à tv quando via os Lobos jogarem em 2009, com pouco mais de 2 anos. Os meus amigos ficavam pasmados com ele…

    É um miúdo emocional, que chora quando Portugal perde e que ficou a detestar o Canada porque viu, nos Sevens de Londres, os canadianos roubarem-nos a Taça Bowl.

    Ainda este fds esteve em frente à tv a ver o campeonato de Sevens no Porto.

    Adora o rugby e Portugal. Não sei se alguma vez virá jogar rugby a sério e se o fizer, se terá o nível exigido para representar o nosso país ao mais alto nível.

    Agora imagine que o fará e que o fará fora de Portugal, digamos em França ou Inglaterra e não aqui no pequeno e inexpressivo Luxemburgo.

    Não vejo qualquer motivo para que ele seja considerado segunda escolha só porque não jogou em Portugal.

    Então o que fazer de jogadores que tendo jogado em Portugal, e por terem uma qualidade interessante para clubes estrangeiros, vão jogar para o estrangeiro? Passam a ser segundas escolhas para a selecção? Os seus argumentos do custo da deslocação ou de “roubar” o lugar a alguém do “nacional” também são válidos nesta situação, não?

    Portugueses somos todos e, pode acreditar, que quem está fora (desde que bem enquadrado) se sente tão ou mais português que aqueles que estão no nosso cantinho.

    Um abraço.

    Manuel de Mascarenhas Gaivão

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