MIGUEL PORTELA – PARA ONDE VAI O RUGBY PORTUGUÊS?

NO CAMPO DESTACOU-SE PELA SUA TENACIDADE E VONTADE DE VENCER, e agora que resolveu ” arrumar as botas” começa a destacar-se como uma voz conhecedora da nossa realidade, que não teme defender os seus pontos de vista, e que pretende colaborar activamente para o sucesso do rugby no nosso país.

A partir de hoje poderá saber o que Miguel Portela pensa sobre os principais temas em debate na nossa pequena comunidade, nas páginas do Mão de Mestre.

MIGUEL PORTELA

A elaboração do presente documento assenta, na sua essência, num único pressuposto:

Rugby escola de vida.

Foi esta a chave que sempre me motivou e me fez apaixonar pelo Rugby.

Foram os princípios da Humildade, do Colectivismo, do Trabalho, do Sacrifício e da Alegria de jogar o jogo pelo jogo que me levaram a apaixonar por este desporto, praticá-lo por mais de 20 anos e sentir uma enorme vontade de retribuir ao jogo tudo aquilo que ele me deu.

O sentimento de gratidão para a modalidade é enorme… pelas mais de 63 internacionalizações que me proporcionou (serão poucas ou mesmo nenhumas as situações das nossas vidas que nos proporcionam tanto sentido de entrega, adrenalina, sentido de união de grupo, como aqueles que se vivem antes e durante um jogo internacional); pelos amigos de uma vida; por me ensinar a superar derrotas e fazer delas momentos de aprendizagem; pelos momentos de glória vividos sempre em grupo e por tantas outras coisas…

Por tudo isto e muito mais, com o final da minha etapa enquanto jogador, não posso deixar de reagir face ao caminho que, silenciosa e perigosamente, estamos a levar o nosso rugby.

Uns conscientemente outros inconscientemente.

Não sou detentor da verdade e, muito menos, da razão…. Contudo, sou detentor da minha consciência e de uma grande experiência (interna e internacional) a nível rugbístico.

Face a tudo isto, quero deixar documentado, em meados de 2010, uma posição clara sobre a minha visão àcerca daquilo que entendo que levará mais longe o nosso rugby.

Um documento onde deixarei bem claro aquilo que entendo que devem ser as bases do nosso rugby, que atitude e medidas a tomar para que não percamos o comboio, cujo bilhete todos os nossos antepassados contribuíram para obter.

O Momento Fulcral

Dúvidas nenhumas podem subsistir quanto ao momento fulcral que leva a toda esta minha exposição: o Apuramento para o Campeonato do Mundo de 2007, num jogo épico realizado em Montevideu no dia 24 de Março de 2007.

Com este feito Histórico (muito mais do que participação em si no RWC) instalou-se a dúvida sobre qual o caminho a seguir no rugby português.

Sem estar a analisar as perspectivas que se levantaram na altura, a certeza é que, a nível de Selecção, o caminho seguido foi o da profissionalização, alegando-se que só assim a equipa evoluiria e, em prazo, seria capaz de ombrear com as melhores.

Rapidamente se montou a estrutura que permitisse o maior profissionalismo à volta da Selecção, estrutura esta que culminou, já num período pós-mundial, com o CNT.

Este foi o caminho seguido pela selecção e que, cada vez mais, tem tendência a ser seguido pelos Clubes, sempre fundamentado no argumento falacioso da melhoria da Competitividade e melhorias das condições de treino.

E é precisamente esta tendência dos Clubes que me preocupa por muitas razões e me faz elaborar este texto.

O profissionalismo nos Clubes portugueses é um erro crasso e evidente.

Só não o admite quem procura uma vitória desportiva imediata e a todo o custo, sacrificando, para isso, largos anos de história, trabalhos e dedicação de muitos aos Clubes dos seus corações, criados e desenvolvidos dentro de um espírito completamente diferente daquele que querem, agora, conduzir os Clubes portugueses.

Um Clube deve ser, mais do que resultados desportivos, um conjunto de massa humana que, ao longo da história, vai passando de geração em geração, os valores que fielmente acredita e neles se revê.

Antes de ser uma máquina de ganhar títulos, um Clube deve ser um local onde os nossos filhos cresçam, aprendam, criem raízes e amizades.

Deve ser uma escola de princípios e valores.

Mesmo dentro do espírito de Competição que tanto prezo e defendo.

Mas mais do que ganhar a qualquer custo, há que saber ganhar bem, com moral e mérito, reconhecido por todos os seus adversários.

Os resultados desportivos não deixam de ser importantes… mas no dia em que se sobrepuserem aos princípios, estaremos no caminho errado e afunilando para a direcção de tantas modalidades que, no tempo, foram esquecendo a essência da sua existência e de todos aqueles que criaram e fundaram os Clubes, dedicaram a suas vidas à formação de jovens e sempre, sempre de uma forma altruísta.

O que ganhará um Clube se a sua equipa sénior for recheada de estrelas estrangeiras ou contratadas, que nenhuma relação de vida tiveram, têm ou terão com o Clube?

Que referências terão os Clubes para passarem a todas as suas camadas jovens?

Quem serão aqueles que, no futuro, pegarão no Clube e, em jeito de gratidão, lutarão e dedicar-se-ão ao Clube, dedicando tempo das suas vidas na Direcção do Clube?

Serão os estrangeiros que, por melhor coração que tenham, estão aqui duas ou três épocas e quando se acaba o dinheiro ou outro Clube ofereça mais , se vão embora?

A forma silenciosa como a profissionalização está a ser instalada no rugby português é preocupante.

Aos poucos estamos a esvaziar a massa Humana dos Clubes.

Aos poucos estamos a fugir do objectivo para que os Clubes foram criados e se desenvolveram (rugby escola de vida e princípios), para darmos lugares a equipas de rugby… equipas estas sem referências históricas (apenas estrelas), cada vez mais inflacionadas (não tarda aparecerá o primeiro Clube insolvente), cada vez mais vazias daquela comunidade que tanto deu ao rugby e o fez crescer.

E tudo isto alicerçado no argumento da vitória e competição.

Argumento este que, pelos exemplos da história, é um argumento mentiroso e falível.

Não só no rugby mas também no rugby…

Ao longo da minha já longa vivência do rugby, não tenho dúvidas em afirmar que o dinheiro não é sinónimo de sucesso.

A “falência desportiva” do Técnico, após ter sido campeão em 98 com uma equipa recheada de semis-profissionais, é exemplo disso.

As sistemáticas vitórias dos Clubes portugueses sobre as equipas profissionais espanholas assim o demonstram.

O facto do actual Campeão nacional ser aquele que nenhum estrangeiro tem e que menos dinheiro gasta com os seus jogadores, também.

E, embora seja defensor da criação do CNT, os resultados provam que não é apenas criando condições para os jogadores treinarem muito que os resultados melhoram.

A qualidade mental e de espírito dos atletas é fundamental.

Nenhuma equipa será campeã sem que tenha, no seu todo, massa cinzenta e atletas com carácter.

É nisto que os Clubes se têm que preocupar… os resultados desportivos aparecerão naturalmente.

Com a grande vantagem de acumular com a formação do tal grupo excepcional de atletas, enquanto indivíduos da nossa sociedade.

Não tenho dúvidas nenhumas que, preocupando-se em criar e desenvolver grupos humanos excepcionais, os resultados desportivos aparecerão.

Não tenho certezas que, comprando os melhores atletas se consiga, automaticamente, vitórias desportivas.

E fico com a certeza que o grupo humano jamais se criará.

A todos estes argumentos não podemos deixar passar em claro um argumento evidente e que, só para os mais audazes e sonhadores não deixará de ser uma realidade: não há publico suficiente para criar um produto rugby/clubes em Portugal.

Claro que falo produto rugby enquanto competição com audiências pois não tenho dúvidas que o produto rugby/escola de vida já existe e é o nosso maior património.

E se assim é, porquê partirmos para o caminho da profissionalização onde ninguém nos garante que conseguiremos o produto rugby enquanto competição com audiências e não mantemos o produto rugby/escola de vida?

Deixemos o produto rugby/competição para a nossa Selecção, a qual deve ser composta pelos melhores jogadores com nacionalidade portuguesa.

Joguem ou não em Portugal, pertençam ou não ao CNT.

E sendo os Clubes uma das géneses da Selecção (temos os luso-franceses e os nacionalizados), porque não caracterizar esta terça parte em homens com formação nos princípios que nos ensinaram a crescer?

Homens estes que, diga-se o que disser, foram os obreiros da única (até agora) qualificação portuguesa para o Mundial (se bem me lembro, no jogo de Montevideu, a selecção eram toda composta por jogadores nascidos em Portugal com a excepção do André Silva).

Face ao exposto, a minha intenção com este longo texto, é sensibilizar cada um de vocês, dirigentes e responsáveis pelos destinos dos vossos Clubes, para repensarem a politica instituída.

Não é uma questão de boa ou má gestão de dinheiro. É uma questão de boa gestão de valores e princípios Humanos….

Será que vale a pena gastarmos tanto dinheiro em contratações em jogadores que jogam e vão-se embora?

Será que vale a pena andarmos em sistemáticas guerras politicas e burocráticas?

Será que vale a pena ganhar a todo o custo, sem semear a semente do futuro?

Eu andei na segunda divisão, perdi finais de campeonatos, falhei apuramentos para fases finais, perdi taças ibéricas, perdi o meu lugar de titular no inicio do campeonato do Mundo, fiquei de fora dos convocados do Mundial de 7´s em 2009 (depois de ter trabalhado como nunca) e sei que nenhuma dessas derrotas me fez perder valores, me fez desistir ou fez com que terceiros me olhassem de uma pior forma ou me deixassem de apoiar….

Pelo contrário, precisamente por conhecerem a minha maneira de ser, as minhas convicções, esse apoio e admiração foi ainda maior…. E a vontade de ganhar cresceu ainda mais.

Não tenho dúvidas que, se cada um de nós conseguir implementar esse espírito dentro dos nossos Clubes, os momento desportivos menos maus converter-se-ão em grandes vitórias….

Convido-os a todos a falarmos sobre o que descrevo nestas páginas.

Sendo certo que, mais do que regras ou protocolos, é altura de assumirmos o compromisso de honra e consciente do caminho que queremos seguir.

Nota final para, como tenho assumido, sou claramente a favor da profissionalização das estruturas e condições desportivas a proporcionar aos jogadores… Mas meter dinheiro no bolso dos jogadores jamais…

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2 Respostas to “MIGUEL PORTELA – PARA ONDE VAI O RUGBY PORTUGUÊS?”

  1. Carlos Oliveira Says:

    Um grande texto, escrito por um GRANDE jogador, um GRANDE capitão, e decerto um GRANDE homem.
    Obrigado por ter tido o previlégio de ter arbitrado muitos jogos onde partcipaste.

    Carlos Oliveira

  2. Antonio Nunes Says:

    Concordo com tudo que disseste!
    Na minha opiniao, a paixao pelo rugby e’ inseparavel pela paixao pelo clube que representamos.

    Cumprimentos

    Antonio

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