TORNEIO INTER SELEÇÕES REGIONAIS – OS EQUÍVOCOS DE UMA “COISA” ORGANIZADA EM CIMA DO JOELHO

NA TENTATIVA DE PREENCHER UMA LACUNA IMPORTANTE do calendário de competições internas, a FPR lançou para consulta pública, uma proposta de organização de um Torneio Inter Seleções Regionais.

Achei acertada essa postura da federação, que num só movimento procurava pôr de pé umas das principais orientações competitivas do programa de candidatura de Amado da Silva, e por outro lado quebrar o autismo da anterior direção, pela participação opinativa dos clubes.

Dentro do espírito que sempre tem norteado a minha intervenção no Rugby em Portugal, há mais de 35 anos, e particularmente desde que resolvi iniciar a publicação do Mão de Mestre, preparei um conjunto de comentários e sugestões sobre a proposta federativa, e, apesar de eu não representar nenhum clube, resolvi pô-los à consideração federativa.

Divulguei na altura aqueles comentários para alguns clubes e indivíduos a quem, por este ou aquele motivo me sinto mais ligado, mas vou agora torná-los publicos e abertos para conhecimento geral.

Quem sabe não suscitam a intervenção de outros, valorizando mais a colaboração dos interessados no fenómeno do Rugby português.

EU SOU A FAVOR DAS SELEÇÕES REGIONAIS E DAS COMPETIÇÕES INTER SELEÇÕES REGIONAIS, mas não posso estar de acordo com uma prova em que em vez de se escolherem os melhores, se atribuem cotas por clube, todos os que são chamados aos trabalhos têm que jogar, e se pretende nesses jogos detectar novos talentos.

Mas vamos por partes, as primeiras coisas primeiro.

Porquê o Norte tem que partilhar a mesma seleção com o Centro?

Ou é uma seleção regional, e tem que haver uma por região, ou então chamem-lhe outra coisa qualquer, mas seleção regional não!

Portugal já tem uma Associação Regional no Norte.

Porque não pode ter uma seleção regional do Norte?

E o mesmo se aplica para a região Centro.

Ah, fica uma equipa muito fraca, podem argumentar.

Não sei se é verdade, mas se for, qual é o problema?

Não servem as seleções regionais para criar objectivos a alcançar pelos jogadores?

Não servem elas para criar incentivos para que os jogadores de um determinado território trabalhem para serem os melhores do seu território?

Isso acontece nos clubes – ao mais alto nível só jogam os melhores.

Fulano quer entrar na equipa? Então ele tem que ser melhor que os seus camaradas e ganhar o seu lugar.

Na alta competição não há essa história de cotas, nem da obrigatoriedade de jogar pelo menos 15 minutos.

Uma seleção, seja ela qual for, não pode servir para detectar novos talentos. Só o facto de se incluir esta questão, desmascara inteiramente aquilo que se pretende com aquelas “seleções”.

Os novos talentos são detectados, observados e acompanhados nos clubes, fim de semana atrás de fim de semana.

E quando forem suficientemente bons para integrarem os trabalhos de uma seleção, então serão chamados. Até lá, não!

As “seleções” que se pretendem formar estariam bem num plano de desenvolvimento do rugby juvenil.

Nunca num plano de desenvolvimento do rugby adulto!

Nas seleções do rugby adulto só a alta competição interessa.

Uma seleção de seniores não pode ser uma espécie de recompensa por serviços prestados.

Ser chamado a uma qualquer seleção não é um fim.

É o princípio de uma carreira desportiva de que apenas os melhores podem fazer parte.

Quando em 1970 fui capitão de uma certa seleção nacional de juniores, aconteceu um caso que me marcou para sempre. Um jogador de que não vou revelar o nome, meia hora depois do avião em que seguimos viagem ter levantado vôo, veio ter comigo e disse-me: “Olha, eu fiz uma ruptura no treino de ontem, não disse nada para não perder a viagem, mas não estou em condições de jogar”.

Ou seja, aquele jogador entendia que ir com a seleção era um prémio, um direito que ele tinha, mesmo em prejuízo de todos os outros. E isso está errado.

Quando um jogador atinge a seleção, foi porque provou no campo que é um dos melhores.

E que está preparado, física e mentalmente, para as exigências que lhe vão ser impostas a partir daí, de sacrificar tudo para fazer parte daquele grupo, para vestir aquela camisola.

Criar uma mentalidade destas, numa seleção regional, é o primeiro passo para criar um espírito de “promoção por antiguidade”, em que todos, pela mera razão de existirem, têm direito a experimentar.

Criar esta mentalidade é, além de tudo o resto, uma ofensa para todos os que ao longo de muitos anos trabalharam nos seus clubes, se esforçaram, se sacrificaram, e nunca conseguiram lá chegar.

E é, em última análise uma cuspidela na cara daqueles que vestem a camisola das quinas, dão o couro para honrar as suas insígnias, e chegam assim à conclusão que não valeu a pena. Afinal qualquer um é suficientemente bom para entrar na constituição de uma seleção. Hoje regional, amanhã nacional!

Dito isto, repito o que disse no início: Eu sou a favor das seleções regionais!

E de tal forma sou, que acho que o Norte tem que ter a sua seleção, o Centro tem que ter a sua seleção, e o Sul tem que ser dividido em três seleções regionais.

Mas esta divisão tem que ter um critério territorial e não de um suposto equilíbrio entre as partes.

O Alentejo e o Algarve têm já um número muito significativo de clubes, e devem ter a sua própria seleção, com nome e apelido, e não com a genérica designação de seleção do sul, com sede em Lisboa..

Sem recorrerem ao reforço deste ou daquele clube, eventualmente de Lisboa.

Deve ser uma seleção que abranja toda aquela parte do território, e que sirva de incentivo ao trabalho por parte dos jogadores que lá jogam.

Da mesma forma, a divisão de Lisboa não deve ter como bitola a suposta qualidade deste ou daquele clube, mas sim a sua localização dentro da região que se pretende dividir.

Eu dou um exemplo, mas podia dar outros.

Na proposta da Federação, junta-se o Belenenses e Agronomia ao Cascais e ao Rugby da Linha, mas deixa-se o Benfica com o Técnico, CDUL, e Direito.

Mas digam-me lá: onde joga o Benfica, e onde vai ser o campo do Benfica? Não é em Oeiras?

Então porque se tira o Benfica do seu território e o colocam com clubes da zona oriental de Lisboa?

Porque não se junta o Benfica, que é, ou vai ser, de Oeiras, com o Cascais, e companhia?

E não se põe o Belenenses e a Agronomia com os seus vizinhos de Monsanto ou da cidade universitária?

A divisão deve ser, também em Lisboa, meramente territorial.

Não estamos a falar de Lisboa A e Lisboa B em função da qualidade das equipas.

Mas deveríamos estar a falar de Lisboa Central e Lisboa Oeste, em função da localização dos clubes que fornecem os jogadores para a seleção em questão.

Já o disse no início e repito: Eu sou a favor das competições inter regionais!

Mas chamar de competição a um encontro de equipas em que todos têm que jogar, pelo menos 15 minutos, e as equipas realizam dois jogos em dois dias seguidos, mas,  regulamentarmente, os jogadores não podem jogar mais de 100 minutos cada um, é errado!

Podem chamar-lhe “encontro de jogadores e das suas famílias – vem e traz as botas!

Mas “competição inter regional”, por favor, não façam isso!

Um jogador não deve, nem pode, jogar mais de 100 minutos em dois dias seguidos? Tem uma solução simples: façam os jogos sem ser em dias seguidos.

Não dá para fazer num fim de semana?

Então levem os dias que forem necessários.

Mas façam bem feito, e com dignidade.

A dignidade que uma equipa qualquer merece, e muito especialmente uma seleção, seja regional ou nacional!

Finalmente vou abordar uma questão que ninguém refere, mas que parece que a nossa seleção nacional não consegue passar sem ela.

A questão dos jogadores portugueses ou de origem portuguesa, vivendo e jogando em França.

Pelo menos desde 1992 que se têm tentado encontrar em França, os jogadores que fazem falta à seleção portuguesa, mas em nenhuma ocasião se tratou essa questão como uma orientação política da Federação, antes navegando ao sabor de algumas informações e conhecimentos, mas nunca de uma forma sistemática e organizada.

Creio que a organização deste Torneio Inter Regional seria a ocasião adequada para lançar um sistema de prospecção baseado na observação programada de quantos, vivendo e jogando no estrangeiro, queiram ter uma hipótese de serem chamados aos trabalhos dos Lobos.

Os irlandeses formaram já há anos, uma equipa, a que chamam Exiles, para esse fim, e mesmo ao nível de clube é fácil encontrar em Londres os irlandeses (London Irish) ou os escoceses (London Scottish) que aí vivem e querem jogar rugby mantendo uma ligação com a sua Pátria.

Porque não fazer o mesmo?

Porque não organizar uma seleção regional de França?

Porque não trazer essa equipa a participar com as outras cinco, enunciadas mais acima, num verdadeiro Torneio Inter Regional?

É tempo de ter uma política clara e pública sobre esta questão.

Ou não queremos na seleção nacional portugueses que vivem e jogam fora de Portugal;

ou queremos os melhores portugueses na nossa seleção e não podemos passar sem esses nossos compatriotas.

Neste caso não serve de desculpa dizer que não temos meios financeiros para tratar da questão com a seriedade que ela exige.

A idéia é boa? Concordam e acham que ela deve ser posta em prática?

Então aprovem-na, e se for necessário ponham nessa aprovação um valor limite para as respectivas despesas – eventualmente de valor igual ao das restantes seleções regionais.

E eu digo que o financiamento integral para essa equipa surgirá!

Não usem a questão da falta de dinheiro como desculpa.

Ou acham que deve ir para a frente, e então aprovam a idéia, ou então assumam que a idéia não presta ou que os jogadores portugueses que vivem e jogam no estrangeiro não devem integrar os trabalhos da nossa equipa principal.

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