AS SELEÇÕES NÃO SÃO UM FIM. SÃO UM PRINCÍPIO

ENSINOU-ME VELHO MESTRE, COM UMA SABEDORIA FEITA DE TROPEÇAR E LEVANTAR, que a vida é como um armário enorme, cobrindo as paredes da nossa casa, com inúmeras pequenas gavetas, todas alinhadas e identificadas com lindas etiquetas em papel couché, e contendo cada uma delas uma questão para ser resolvida.

Só existe uma maneira para encarar aquele armário e desafiar o seu conteúdo: abrir uma gaveta de cada vez, e ir resolvendo as questões, umas maiores, outras menores, umas dizendo respeito à água, outras dizendo respeito ao vinho, com ordem e serenidade.

No momento em que se abrem várias gavetas ao mesmo tempo, e se deixam saltar as questões para cima da mesa, misturando-se, instala-se o caos, e nenhuma das questões se consegue resolver.

Você passa o tempo todo a organizar e a dar ordem às coisas, mas resolver as questões, nem pensar.

Assim está o rugby português.

As gavetas têm estado fechadas, mas com o fim do ciclo do Mundial, a tendência é para que haja um verdadeiro assalto ao armário, na tentativa de saciar frustrações, encontrar culpados e …mascarar soluções.

Se cada um de nós, ao contrário de pretender resolver todos os problemas, se dedicar a um conjunto homogêneo deles, a margem de êxito será maior, já que vamos trocar a generalidade pela especialidade, e deixar a articulação de todos os conjuntos, na mão daqueles que escolhemos para dirigirem os destinos do nosso Rugby: os Delegados à Assembleia Geral, e o Presidente da Federação.

Mas para que seja possível analisar com correção a verdadeira situação do Rugby em Portugal, é preciso conhecer alguns elementos fundamentais.

Refiro-me por exemplo ao número de praticantes, devidamente separados por escalões etários e regiões.

Este era um elemento que estávamos habituados a ver nos relatórios de actividade anuais da FPR, mas que este ano (2009), primam pela ausência.

Apesar dessa falta, procurei obter os dados referentes ao ano em questão, e encontrei duas fonte de informação: o Plano e Orçamento para 2010, e os dados apresentados pela IRB, que devem ter sido fornecidos pela FPR..

Resolvi utilizar os dados da IRB por apresentarem uma evolução positiva nos números abaixo dos 20 anos de idade, que me parece aceitável.

O primeiro quadro diz respeito a Portugal e compara o número de jogadores adulto, e Sub-20 (todos os escalões) nos anos de 2006 a 2009.

O segundo quadro serve para comparar o que acontece no nosso país com o que acontece noutros países da Europa.

Como se verifica, houve uma progressão no que diz respeito aos escalões mais jovens, mas os números dos seniores estagnaram, depois de um certo incremento pós Mundial 2007.

Nos escalões mais jovens o progresso é evidente, com um aumento de 28% no número de jogadores entre 2006 e 2007, 45% entre 2007 e 2008 e 35% entre 2008 e 2009.

Segundo o Plano de Actividades aprovado em Novembro, o aumento do número de praticantes nos escalões jovens para 2010 deve rondar os 30%, o que, a continuar o trabalho que se tem desenvolvido, não me surpreende.

Não nos esqueçamos no entanto, que os jovens também crescem, e se tornam adultos.

E esse acto da natureza, leva-me à primeira pergunta: onde irão jogar esses jovens, depois de se tornarem adultos?

Partindo do princípio que de 2008 para 2009, os jovens também cresceram, fico surpreso por verificar que não houve aumento no número de jogadores seniores, como se verificou nos anos anteriores.

E isso leva-me à segunda pergunta: Para onde foram os jovens que cresceram?

Mas o mais significativo deste mapa, respeita à relação de jogadores seniores por milhão de habitante, e à percentagem de jogadores seniores em relação ao total de jogadores.

Na verdade esses números são preocupantes, e demonstram claramente onde deve ser aplicado o esforço desenvolvimentista.

Existe uma enorme margem de progressão no escalão sênior, mas fica a pergunta: onde estão as estruturas – desportivas e administrativas – para enquadrar o necessário aumento de praticantes seniores?

Pode-se falar em falta de competitividade, pode-se levar alguns jogadores ao contacto com outras realidades desportivas, pode-se imaginar um quadro competitivo para as seleções regionais, mas nenhuma destas acções terá real impacto, se não forem criadas as estruturas capazes de enquadrar o necessário aumento de jogadores seniores.

Sem mais clubes, sem competições regionais para esses clubes, que constituam um atractivo para os jovens que crescem, o excelente trabalho que se tem feito com os mais novos será perdido, como já começou a acontecer.

Não basta aumentar o número global de praticantes. É imperioso que a relação do número de praticantes seniores em relação àquele número global aumente dos actuais 19 para a casa dos 30 a 35%.

Assim como devemos estabelecer uma meta a atingir, no que diz respeito ao número de jogadores seniores por milhão de habitante.

Na minha opinião, devemos encarar o desafio de triplicar o actual número (103) e atingir os 300 jogadores por milhão de habitantes, o que elevaria o número dos atletas seniores para a casa dos 3 a 3,3 mil.

E mantendo aquela relação de 30 a 35% de seniores em relação ao total global de jogadores, teríamos atingido um número redondo muito significativo de 10 mil jogadores, o que considero exeqüível num prazo de cinco a seis anos, ou seja, no decurso do ciclo do Mundial que agora se inicia (2010-2015).

Se ao mesmo tempo formos capazes de garantir a tal competitividade, e as tais competições de clube e de seleções regionais, outro galo cantará.

Mas se nos esquecermos de algum dos componentes desta evolução, então lá voltaremos ao velho esquema de organizar apenas com objectivos de curto prazo que se esfumam em nuvens de esperanças perdidas.

Não basta pensar no desenvolvimento do Rugby Juvenil, há que investir no desenvolvimento do Rugby Adulto.

Não basta apostar no desenvolvimento competitivo de uma elite de jogadores, é necessário apostar no desenvolvimento dos jogadores dos pequenos clubes.

Para cada jogador de grande nível, dedicado especialmente aos trabalhos da Alta Competição, terão de existir 50 ou 60 jogadores em actividade competitiva.

Para cada equipa capaz de jogar de igual para igual com as melhores equipas da Europa, na Heineken Cup, na Amlin Cup ou na Magners League, teremos forçosamente de ter 50 ou 60 equipas a disputar um quadro competitivo completo, envolvendo diversos níveis e todas as regiões.

Ou se preferirem, para podermos ter duas equipas disputando com sucesso as competições europeias de clube, deveremos ter 100 equipas a disputar as competições nacionais, divididas em Divisão de Honra, 1ª divisão, 2ª divisão e divisões regionais.

E cada uma dessas equipas de Alto Rendimento deve ter nos seus quadros uma média de 50 a 60 jogadores.

Tem que ser um trabalho integrado, e qualquer medida que se venha a tomar deve ter como pano de fundo uma visão global de desenvolvimento.

Sem isso continuaremos a discutir se a Divisão de Honra deve ter seis, oito 10 ou 12 equipas, como temos feito pelo menos nos últimos quarenta anos.

Não basta alterar o número de equipas em cada divisão, para resolver os problemas. Temos que definir objectivos quantitativos que nos permitam ir ajustando o número daquelas equipas por divisão, conforme o número e a qualidade dessas mesmas equipas vá progredindo.

Da mesma forma que será inútil e um desperdício de tempo, energia e dinheiro, investir em seleções regionais antes de apostar em competições regionais para clubes.

Sou o primeiro a defender a criação de seleções regionais.

Mas que elas sejam mais que um objectivo a conquistar pelos jogadores, como resultado do seu trabalho realizado nos clubes, e não uma forma de confraternização em que um grupo de “matulões” se encontram num fim de semana, todos jogam um bocadinho e depois bebem-se umas canecas.

A presença numa qualquer seleção não pode ser uma espécie de prémio de participação, do tipo “jogo, logo tenho direito a jogar numa seleção.”

O espírito tem que ser outro. Nas seleções apenas jogam os melhores. Mas têm que mostrar que são os melhores antes de integrarem os trabalhos da seleção. E isso tem que acontecer nas equipas de clube, num quadro competitivo que deve começar em cada região.

E os trabalhos das seleções devem sempre ser levados a cabo a um nível superior ao desenvolvido nos clubes, por forma a que representem um novo desafio para os jogadores que lá cheguem.

Integrar uma seleção não deve ser um fim em si. Deve, pelo contrário, ser um princípio.

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